Parem lá com a diabolização da tecnologia

Se há uns anos era incrível falar sobre as coisas maravilhosas que a tecnologia estava a trazer à nossa vida — ainda me lembro da alegria que senti quando percebi que podia ver o número de quem me estava a ligar, quando recebi o primeiro telemóvel — agora parece que a conversa anda sempre à volta do mesmo: as redes sociais e os telemóveis estão a matar as relações pessoais. Não estão. Isso é só estúpido. Enquanto as pessoas forem pessoas vão sempre relacionar-se, vão sempre continuar a adorar jantares de grupo, com amigos, com família, haja ou não telemóveis. O que mudou foi a vida, foram os hábitos, não foi o prazer que retiramos desses momentos.

Sou dos que defendem a tecnologia e as redes sociais com tudo o que tenho. Defendo porque percebo o quão melhor é hoje a vida, apesar de todos os problemas que derivam desses novos hábitos. Distraímo-nos mais com o telefone quando estamos com a família? Sim, é verdade. Lemos menos livros, revistas e jornais? Certo. Perdemos demasiado tempo a fazer um scroll interminável numa rede social? É, acontece a todos. Vamos jantar com amigos e quando damos por ela estamos todos agarrados ao telefone? É muito frequente. E estes são quase sempre os tópicos das conversas dos detratores da tecnologia, os defensores da vida como ela era dantes, como se ela fosse perfeita.

Ora então, vamos lá ao outro lado.

No antigamente, nos tempos em que não havia telemóvel (sim, eu sou desses — tive o primeiro telemóvel aos 20 anos, em 1997), era frequente eu não conseguir almoçar ou jantar com os meus colegas de faculdade unicamente porque não sabia que os tinham combinado. Muitas vezes acertavam as coisas em alturas em que eu não estava presente, ligavam-me para casa, deixavam recado a dizer onde iam, mas a mensagem só me era entregue depois desse almoço ou jantar. Não havia forma de me contactar, de me avisar, não havia um chat, uma rede social, um telemóvel, nada. Dizerem que hoje as pessoas quando se juntam passam demasiado tempo agarradas aos telemóveis é uma verdade, mas também é verdade que hoje as pessoas se juntam muito mais, que têm muito mais facilidade em combinar coisas, em encontrar-se. Quantas e quantas vezes não recebemos um chat ou uma mensagem de alguém que sabe que vai andar por perto do local onde trabalhamos a perguntar se queremos beber um café? E nós vamos. Estas coisas, dantes, nos tais tempos fantásticos, não aconteciam, ou era muito mais difícil que acontecessem. Hoje, falo com a minha mulher 20 vezes por dia, quase sempre por mensagens, ou chat, ou what’s app, mas a verdade é que falo. Há 20 anos, falava com a minha namorada uma vez por dia, quando ambos estávamos em casa, e por telefone fixo, mas sempre durante pouco tempo porque as chamadas eram caras.

Sinceramente, acho que as pessoas tendem a esquecer o lado complexo da vida quando não existia tudo o que temos hoje à nossa disposição. O nosso cérebro guarda, com muito mais carinho, as recordações muito boas, e com menos carinho as muito más, mas não se preocupa com as coisas irrelevantes como estas, as de como era o dia a dia, e é por isso normal que hoje tendamos a achar que antigamente é que era, e que dantes é que a vida era boa e as pessoas eram próximas e verdadeiramente amigas.

Agora, outra coisa, a solidão. Muitos dizem, também, que as redes sociais nos isolam, nos fecham em nós mesmos, nos prendem a um quarto, um escritório, em frente a um computador. Mentira. Não são as redes sociais que nos prendem, é muitas vezes a nossa preguiça, inércia ou até o nosso feitio, sobretudo os que são mais tímidos. Quem é tímido, é tímido, seja em que tempo for. Só que dantes, nos tais tempos glorificados sem internet, os tímidos fechavam-se nos quartos agarrados a comics, a sonhar com o dia em que talvez possam vir a ter força para dirigir a palavra a uma miúda engraçada, a pensar em como podiam ser mais felizes se se integrassem, se fossem extrovertidos como este ou aquele colega. Hoje, as redes sociais estão cheias de tímidos ativos, atrevidos, irreverentes, criativos, sedutores. Conheço vários. Um dos meus colegas de escola mais calados, mais introvertidos, menos sociais, é hoje um ativo avatar no Facebook, metido em mil e um grupos de discussão, comentador regular de páginas de coisas de que ele gosta. Muito provavelmente retira daí prazer, satisfação, integração. Estar sozinho é bem pior do que estar virtualmente acompanhado, porque do outro lado do ecrã não estão robôs, estão pessoas, e muitas vezes o contacto online é apenas o primeiro passo para um outro contacto, pessoal.

E é aqui que discordo da tese do cara a cara, das pessoas que defendem aquela coisa do “ah, para mim os contactos são olhos nos olhos”. Como é evidente, meus caros. Todos queremos e gostamos de olhos nos olhos (talvez os tímidos de que falei não se sintam totalmente confortáveis, mais pronto). Só que essa coisa do “olhos nos olhos” não tem de ser desde o primeiro contacto. Nos tempos dos nossos avós, os namorados também se viam muito de vez em quando, e falavam por carta. Então e isso já é super romântico? E os tais “olhos nos olhos”?

Termino como comecei: enquanto as pessoas forem pessoas vão querer sempre estar próximas, tocar-se, olhar-se. Só que a vida nem sempre nos permite isso, e não permite sobretudo a toda a hora. Ou não permitia. Hoje, permite-nos estar muito mais próximos dos que gostamos. Só depende de nós, da nossa inteligência e bom senso, fazer disso uma coisa boa. Tudo o resto é background noise.

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