Pão Nosso

Se nos perguntarem qual o alimento que assumimos como essencial na nossa alimentação diária, que nasceu da simples conjugação e mistura de 3 ingredientes, que constituiu a base de sustento de muitas sociedades desde que há lembrança, e que apresenta uma conotação que vai muito além da alimentar, não seria nada de difícil e até unânime resposta. Rapidamente se diria: o Pão.

Um alimento que se sabe existir desde sempre e dá forma a um símbolo de reunião e partilha, mas também de alguma segregação social em determinadas fases da história universal, tem no seu consumo uma espécie de culto e tem evoluído a par da transformação das sociedades, tanto ao nível humano como agrícola.

Já serviu como moeda de troca, para aproximar pessoas e para matar a fome quando o acesso a outros alimentos era simplesmente inexistente, e o trigo se mostrava-se o cereal mais disponível.

Pode ter na sua base cereais como o trigo, o centeio ou o milho. Pode, ou não, passar por um processo de levedação ou fermentação.

Pode ser simples ou mais composto. O que não pode é faltar à mesa.

Adquire formas e sabores distintos mediante a região e cultura que serve, mas é consensual quanto ao carácter espiritual, religioso, carregado de simbolismo, que possui.

Está também estreitamente ligado à Vida e ao Trabalho, e mostra-se terapêutico para tantos que, no ato de o amassar e ver crescer, encontram paz e uma fundamental sensação de relaxamento.

Com farinha, água e sal é possível fazer pão sem grande ciência. Contudo, se há milhares de anos atrás este alimento não passava de um pedaço duro e amargo de massa seca, hoje consegue ser quase tão ligeiro como uma nuvem. Graças ao desenvolvimento técnico que levou ao aprimoramento de novos métodos de moagem, fermentação e confeção, originando e fazendo progredir a industria da panificação, começou a ser possível obter os mais variados tipos de pão. Já no séc. XII eram produzidas em França vinte variedades distintas.

Há quem o consuma apenas ao pequeno almoço, eventualmente ao lanche, assim como há os que não prescindem dele para acompanhar qualquer refeição. Simples, com manteiga, compota, queijo e/ou fiambre, com um pedaço de carne dentro, na qualidade de par perfeito para os ovos estrelados ou para absorver aquele restinho de molho do prato. É seguramente o alimento mais omnipresente da nossa refeição.

E longe vai o tempo em que o saco do padeiro apenas trazia biju ou molete. Hoje, em qualquer pão-quente a variedade é tanta que o difícil mesmo é a escolha. Desde o tradicional integral, ao pão da avó, passando pelo pão de mistura, da beira, de água, de sementes, de milho ou de malte, compete ao nosso costume ou apetite do dia decidir.

Ainda que atualmente alguns hábitos tenham mudado com a adesão ao glutenfree, numa fase em que mesmo quem não apresenta intolerância a esta proteína, que se encontra na semente de alguns cereais como o trigo, o centeio ou a cevada, opta por suprimi-lo da sua alimentação, substituindo-o por versões isentas de glúten, o pão, na sua forma e composição originais, cujo sabor e aroma tão bem conhecemos, seguramente nunca perderá o seu reinado. E isto deve-se, essencialmente, a esta ligação quase emocional que estabelecemos com este alimento único.

Relação que, por outro lado, pode trazer dissabores diversos. Quantas dietas não funcionam com a eficácia desejada, ou são até destruídas, pela impiedosa dependência deste conhecido amigo? Imensas!

Quantas vezes ouvimos, no decorrer de um regime com restrições alimentares cuja finalidade é a perda de peso: “cortem-me tudo menos o pão”? Muitas vezes! É muito mais fácil suprimir hidratos de carbono na forma de massa, batata ou arroz do que o pão. Este pode ser reduzido, pode até ser substituído por versões mais rústicas e escuras, mas faze-lo desaparecer completamente dos nossos dias é impensável.

A versatilidade deste senhor alimento, muitas vezes aparentemente subvalorizado, é tanta, que consegue materializar com igual dignidade e sucesso pratos doces e salgados. Senão vejamos o quão deliciosa poderá ser uma boa açorda, que facilmente rivaliza com um suave e docinho pudim de pão. Isto para referir apenas dois exemplos de uma imensidão de excelentes iguarias que o pão ajuda a criar ou concebe por si só.

Existem hoje em dia, no entanto, novas e variadíssimas opções que objetivam apresentar-se como alternativas ao pão tradicional. Ainda que algumas só possam aproximar-se dele na sua denominação, são alternativas que, pelo menos formal e estruturalmente, vão agradando e fazendo adeptos.

Desde os bolos que se chamam de pães, pelo simples facto de não serem doces mas sim salgados, aos cloud breads, que são uma espécie situada ali entre a omelete e a panqueca, até aos pull apart bread, um pão que se vai soltando dele próprio, em pedaços, e como o nome indica é um “pão de partilha”, a oferta é considerável e bem interessante.

Não é credível que tenham a pretensão de substituir este querido alimento-base como o conhecemos, pois simplesmente são incomparáveis, distanciando-se consideravelmente na sua estrutura, composição e sabor, mas mostram essencialmente um explorar de soluções alimentares ricas e versáteis que, de alguma forma, contribuem para um geral enriquecimento gastronómico.

Já o indiano naan, o árabe pita, a tortilla mexicana ou o judaico   são alguns exemplos de pães ancestrais, de outras paragens, que cada vez mais marcam presença e se vão misturando e envolvendo nos nossos sabores. Não esquecendo a famosa baguete que é um símbolo máximo da vida francesa e já mais do que querida e devorada entre nós.

É curioso ver a forma como um alimento tão culturalmente entranhado adquire formas e texturas tão próprias de acordo com as condicionantes étnicas, e a maior parte das vezes religiosas, de cada povo.

No que toca à forma muito mudou desde a criação e origem do pão até ao que ele é hoje. Já em relação ao conceito, pode assumir-se sem receios que o seu papel na alimentação do ser humano continua e permanecerá intocável e imperturbável.

Por mais que os pequenos-almoços, essa refeição essencial do dia onde o pão sempre foi rei e senhor, tendam a incluir alimentos de outros aportes nutricionais, do qual as papas de aveia, os cereais, a fruta, os ovos e os batidos são exemplo, o pãozinho ou a torrada acompanhada da meia de leite, nunca serão vencidos.

Por cá, pão que é pão é firme e estaladiço por fora e fôfo por dentro. Cheira a pão. Liberta restinhos de farinha. Ouve-se estalar ao partir. E é bom de qualquer maneira.

Mas quente com manteiga é perfeito.

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