Os livros que marcaram a minha vida

O livro certo é algo que nos toca profundamente. Não há forma de escaparmos. Sentimos empatia por pessoas que não existem, lugares que nunca conhecemos nem iremos algum dia conhecer e, essencialmente, identificamo-nos com os obstáculos que essas mesmas pessoas estão a ultrapassar. São poucos os livros que realmente conseguem ter um impacto assim nas nossas vidas.

“Nunca conheci ninguém que não fosse importante” diz-nos Doctor Who, na afamada série britânica da BBC. Esta frase podia, sem dúvida, ser aplicada aos livros.

Quando tropecei acidentalmente no “As Vantagens de Ser Invisível” não sabia o significado que aquela história iria ter para mim. Não era apenas por falar de um rapaz tão solitário quanto inteligente, mas pelo conceito de solidariedade e amizade que lá estava tão genuinamente embutido.

Não é toda a gente que consegue pôr crianças de 10 anos, avessas à leitura, a fazer fila para agarrar o novo volume da saga.

Numa escrita tão direta quanto intimista, o autor faz-nos ver o mundo através dos ingénuos olhos de Charlie. “Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos” é a mensagem de ” As Vantagens de Ser Invisível “. Gostei de ver Charlie a lutar contra a sua depressão e a fazer o esforço para “participar” numa sociedade em que era definitivamente difícil não se apagar.

“Um Conto de Duas Cidades” foi considerada a melhor obra de Charles Dickens e não é complicado perceber porquê. Dickens consegue a façanha de enganar o leitor e, fazê-lo acreditar que o seu melhor e mais perfeito personagem é apenas um advogado bêbedo. Sydney é o epítoma do incompreendido, daquele que é sempre visto como inútil, daquele que por mais que se esforce não é tido como mais que um grão de areia no meio de uma praia. E quantos de nós não se sentem assim? Podia passar uma página inteira a falar sobre esta história e, não seria suficiente para explicar a beleza das palavras do autor, o sacrifício de Carlton ou o sentido da obra em si.

“O Paraíso das Damas” de Émile Zola cativou-me pela história de luta dos seus protagonistas.

A primeira vez que ouvi falar de “Harry Potter e a Pedra filosofal” pensei que seria um livro normal, engraçado e divertido, mas irrevogavelmente normal. Afinal, que havia de novo para contar em fantasia? Dragões e homens meio brutos a tentar terminar uma demanda? Done. Crianças órfãs encontram armário que dá para um mundo de fantasia mágica? Check. Mas não havia nada como Harry Potter, apenas porque só existe um Harry Potter. Ao longo das páginas cheias de trolls, perigos e aventuras, conhecemos um lado da nossa imaginação que julgávamos oculto. A capacidade de sonhar batalhar junto a amigos improváveis de varinha em punho é um dom que J.K. Rowling deu aos seus leitores.

Ninguém pode acusar J.K.Rowling de não saber escrever. Afinal, não é toda a gente que consegue pôr crianças de 10 anos, avessas à leitura, a fazer fila para agarrar o novo volume da saga.

“Orgulho e Preconceito” como livro favorito pode soar cliché, mas os clichés não são, por vezes, boas ideias que devem ser repetidas? Este romance apaixonante de Mr. Darcy e Elizabeth Bennet é muito mais que uma fábula de amor romântico, é uma sátira à sociedade inglesa do período da Regência. De fazer rir, chorar e sonhar, é o livro que todas as mulheres devem ler e ter na sua estante.

Zola tem a capacidade de transformar um retrato vil de uma sociedade em crise num texto poético e fluído.

Quando a morte narra a vida de uma rapariga de 9 anos, percebemos que ela só pode ser especial. Liesel Merminger é a “A Rapariga que Roubava Livros”. Os livros que rouba encontram-na, por acaso. E o mais irónico de tudo é a circunstância de Liesel não saber ler quando o livro começa. Ao longo de páginas e páginas, Liesel tenta sobreviver numa sociedade tenaz e dura como era a da Alemanha Nazi. Os laços familiares tão espontaneamente formados entre Liesel e o seu pai adotivo são o ponto alto do livro. É com ele, afinal, que Liesel aprende a ler.

“O Paraíso das Damas” de Émile Zola cativou-me pela história de luta dos seus protagonistas em páginas e páginas de obstáculos difíceis e impossíveis. Denise, a protagonista, apenas deseja ajudar os irmãos marcados pelo luto recente de um pai e pela fome que os esgana. No entanto, Zola é muito mais inteligente que isso. Como bom jornalista, procura demonstrar-nos que existem dois lados: a beleza e pompa do Paraíso e a desgraça dos pequenos lojistas que ficaram com os negócios arruinados, devido aos grandes armazéns.

O belo nunca larga o horrível nem o aceita completamente. Através dos olhos da jovem Denise, vemos o fascínio do armazém “Paraíso das Damas” e as consequências nefastas para os seus concorrentes. Zola tem a capacidade de transformar um retrato vil de uma sociedade em crise num texto poético e fluído. Porque mudou a minha vida? Porque a coisa mais bela é ver um lutador singrar quando tudo está contra ele. Denise é um exemplo disso.

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