O VHS morreu hoje, mas viverá sempre em mim

Criava as minhas próprias capas para os filmes, adorava a excitação de ir a um clube de vídeo e tentava gravar os filmes da televisão cortando os anúncios. O VHS fazia magia naminha infância.

Era uma das coisas que mais gostava de fazer: sentava-me na secretária, folhas em branco, régua, lápis, borracha, canetas de feltro e tesoura. Tirava as medidas ao papel, traçava a lápis as áreas de corte e criava as minhas próprias capas para os meus filmes VHS. A caneta de feltro, na zona da lombada, escrevia no topo o número do filme e, por baixo, o nome, com as letras criadas com a régua, para ficar tudo direitinho. “ O Milagre da Rua 8” , “ Gremlins” , “ Os Salteadores da Arca Perdida” , “ Querida Encolhi osMiúdos” , “ Tubarão” . Tinha-os a todos. Eram quase 200, com ascapas todas feitas da mesma forma.

Só eu sei a alegria que tinha de cada vez que encontrava numa revista daquelas que andavam lá por casa uma imagem de um dos filmes que tinha na coleção.

Arrancava as páginas, cortava as fotos e criava as minhas próprias capas de filme, personalizadas com as imagens de atores, atrizes, cenas do filme. Perfeito foi quando a “ TV Guia” resolveu lançar capas de filmes que davam na televisão. Incrível. A minha vida mudou. Problema: as lombadas estavam todas iguais, com os números no topo, o fundo branco, e os nomes dos filmes na lateral desenhados a régua, e eu não queria começar a ter filmes sem a minha lombada personalizada. Então, o que fazia era recortar essas capas e colava apenas a parte da frente e a parte detrás na folha criada por mim, fazendo eu próprio a lombada igual a todas as outras.

Na semana passada foi anunciado o fecho da última fábrica do mundo que ainda fazia leitores VHS e cassetes VHS. Nos anos 80 e 90, a japonesa FUNAI vendia uma média de 15 milhões de aparelhos. Em 2015, fez apenas 750 mil modelos (aqui o apenas tem de levar umas aspas grandes — quem é que no seu perfeito juízo comprava, em 2015, leitores VHS?). Esta sexta-feira a Funai pôs no mercado o último modelo. Era a última fábrica que restava no mundo.

Estas notícias, embora sejam mais ou menos previsíveis (na verdade, até achava que já nem se fabricavam aparelhos e cassetes), deixam-nos sempre com aquele rasto de nostalgia pelos tempos maravilhosos que vivemos na infância com estes que eram os gadgets da altura. O acesso a tudo era muito mais limitado, não havia internet, nem DVD, só quem tinha muito dinheiro é que tinha dois leitores e conseguia copiar filmes, por isso, os VHS e os clubes de vídeo tinham uma magia muito própria. A ansiedade que sentia quando chegava ao videoclube e espreitava para aquele filme, que tinha acabado de chegar, e percebia que ele tinha a senha na lombada que significava que estava disponível para alugar. Não há palavras para descrever estes momentos. Ou quando dava na televisão aquele filme que queríamos muito ter, e ver vezes sem conta, e então organizávamos tudo para o poder gravar, para poder parar a gravação nos intervalos, tentando que se parecesse o mais próximo possível com um filme de clube de vídeo. Saudades. Recordações das boas.

Também havia o outro lado. Lembro-me de ter uns 12 anos e os meus pais foram sair e pediram-me para gravar o “ Doutor Jivago” , que ia dar na RTP. O filme começou às onze da noite e, para mim, naquela altura, pareceu durar 12 horas. Cabeceava no sofá, cheio de medo de estar a dormir num intervalo e não conseguir cortar os anúncios. Também passei muitas vezes por coisas deste género.

A malta mais nova não sabe bem de que é que estou a falar, mas também nunca vai perceber o valor que quem tem hoje 35/40 anos dava a estas pequenas coisas. A escassez faz isto. Hoje, há abundância de tudo, está quase tudo disponível na hora, em quantidades industriais, é tudo imenso, tudo fácil. Quando assim é, o valor perde-se, os sentimentos perante as coisas esbatem-se.

O VHS morreu hoje, mas viverá para sempre em muitos de nós.

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