“Jason Bourne” está de volta e quer ficar com o seu dinheiro

Ele é Bourne. Jason Bourne. Uma espécie de agente secreto ultra-vitaminado, musculado e aparentemente invencível. Esta era a imagem que guardava do herói desta saga nascida em 2002 e que, surpreendentemente (ou não), nunca me convenceu a ir ao cinema.

Nem naquelas tardes aborrecidas de domingo, Matt Damon conseguiu tentar-me a não fazer zapping. “É um dos melhores filmes de ação do século”, explicavam-me. Chegou finalmente a hora de tirar a teima e, sem tempo para perder a percorrer os primeiros três filmes — aconselharam-me a esquecer o percalço do quarto filme, com Jeremy Renner como protagonista — atirei-me para o mundo de Bourne e assisti a “Jason Bourne”, que chegou aos cinemas esta quinta-feira, 28 de julho.

O mundo de Bourne é em tudo semelhante ao nosso: há ameaças terroristas, crises sociais, e governos hiper-vigilantes.

O mundo de Bourne é em tudo semelhante ao nosso: há ameaças terroristas, crises sociais, e governos hiper-vigilantes. E depois, há Matt Damon: toda a perícia de um Bond injetada no corpo de uma personagem com o carisma de um calhau.

O rapaz é uma alma torturada, maquinalmente usado pelas operações clandestinas da CIA. Sofreu uma grave crise de amnésia e teve de combater a agência mais poderosa do mundo até finalmente recuperar a identidade. É neste contexto que é dado o tiro de partida para o quinto filme.

Agora sob o seu verdadeiro nome, David Webb, o herói é trazido de volta para a apertada rede de vigilância pela amiga Nicky Parsons (Julia Stiles) que pretende revelar todos os segredos sujos da Agência num golpe à la Snowden. Entre as revelações, desvenda-se mais uma descoberta dramática sobre o passado de Bourne e que o coloca em guerra com o diretor da CIA, desta vez interpretado por um cansado Tommy Lee Jones em modo de pré-reforma.

Ao seu lado, a miúda do momento em Hollywood, a sueca Alicia Vikander, que assume o papel de chefe da divisão de ciber-operações — e um desperdício de talento nesta personagem mal construída que, durante 120 dos 123 minutos de duração do filme, foi incapaz de apresentar de forma plausível as suas motivações. Quando elas chegaram, já bem no final, era tarde demais.

“Jason Bourne” é mais um filme de ação pastilha elástica, para ajudar batatas do sofá a queimar tempo, num qualquer domingo pachorrento. Sente-se confortavelmente, tome um comprimido para o enjôo — Greengrass, a shaky cam não é realista, é apenas irritante — e prepare-se para uma versão hiper-realista de Tom & Jerry, entre Bourne e a versão robótica do vilão interpretado pelo francês Vincent Cassel.

“Jason Bourne” é mais um filme de ação pastilha elástica, para ajudar batatas do sofá a queimar tempo.

Previsivelmente, há explosões, perseguições em Las Vegas, em Atenas, em Londres e a desgraça inevitável das sagas prolongadas por motivos meramente financeiros.

O novo filme Bourne vai andar pelas salas de cinema, vai entreter alguns milhares de espetadores que procuram uns minutos de explosões e cenas de pancadaria e, previsivelmente, irá terminar a sua carreira num arquivo bafiento, de onde são retirados à sorte os filmes que passam vezes sem conta nas televisões, nas tardes dos fins de semana. Pelo menos até à chegada do sexto capítulo que, não se iludam, vai chegar mais cedo ou mais tarde.

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