O que é isto de ter quatro filhos

Quando digo a alguém que tenho quatro filhos, a reação habitual é, no mínimo, um arregalar de olhos. Mas também há exclamações, esgares, caretas e até palavrões de quilo. É verdade que há dias em que a minha casa parece um hospício. Mas em muitos outros dias, é só uma casa normal com muita gente dentro. É verdade que nunca levamos só um carrinho de compras no Continente, mas dois, e é verdade que na fila para pagar parecemos uns aliens, com toda a gente a mirar boquiaberta os dois carros apinhados. Mas tirando uma ou outra excentricidade, somos só uma família comum, só que com muita animação.

Gosto dos despertares ao fim-de-semana. Acorda um, depois outro, a seguir o terceiro, e quando a cozinha já parece cheia, ainda chega mais um filho ensonado e a esfregar os olhos.

Nesses momentos não consigo deixar de sentir uma felicidade transbordante.

Era capaz de apostar que o meu coração tem uma dimensão desproporcionada, como se tivesse sido insuflado.

Não é tão difícil como se pensa, ter quatro filhos. Sobretudo quando o mais velho tem 14 anos e o mais novo tem um, ou seja, quando já há uma diferença de idades suficientemente grande para que os irmãos ajudem os pais. Estou em crer que isso ajuda também na sua formação, ensina-os a ser responsáveis, a perceber que é preciso colaborar, porque em equipa é mais fácil.

Talvez o maior de todos os desafios seja mesmo a atenção que se despende com cada um deles. Porque, no ramerrame da vidinha de todos os dias é fácil tratar todos da mesma maneira, esquecendo que há uns que precisam de mais atenção em determinado momento, seja por estarem a passar por um período mais complicado na escola, seja pelas contingências da idade, seja pura e simplesmente por uma questão de personalidade ou mimo. Acho que o equilíbrio mais difícil, nisto de ser mãe (e pai) de uma família numerosa, é mesmo o de perceber que os nossos filhos, apesar de serem muitos (e, caramba, também não são assim tantos), não são um rebanho. E precisam de atenções diferentes.

Quando compreendemos isso, criámos cá em casa o Dia do Filho Único (DFU). Basicamente é um dia em que procuramos dedicar mais tempo a um dos filhos, fazendo com ele um programa especial: pode ser ir almoçar fora, ir ao cinema, dar um passeio, qualquer coisa em que ele seja o protagonista, sem o eco dos irmãos por detrás.

Há famílias onde isto não resulta. Tenho uma amiga cujos filhos, sentindo-se sem os irmãos, nem sabiam bem o que fazer, como se estivessem desasados, perdidos, e que chegaram a verbalizar “isto assim não tem piada nenhuma”. Acho que nesses casos não vale a pena insistir. Mas no nosso caso em concreto resulta, e resulta mesmo bem. O filho em destaque sente-se o centro da nossa atenção, sem desfoques, sem outros assuntos que não sejam os seus. É um momento em que falamos a sua linguagem, discutimos temas que lhe interessem, vemos filmes que queira muito ver. E ninguém interrompe. E estabelece-se ali uma cumplicidade que perdura, não apenas nesse dia mas nos seguintes, que dá serenidade e que se contagia pelo resto da família.

Ter muitos filhos (e não são tantos quanto isso) obriga, sem dúvida, a uma gestão eficaz. Financeira, de tempo e também emocional. Porque eles são todos nossos. Mas não são todos iguais.

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