Cinema e Futebol: um casamento impossível?

Dizem-nos os amantes da Sétima Arte um pouco por todo o mundo que o futebol é um animal que resiste ao cinema, mesmo sem perceberem muito bem as razões pelas quais os dois grandes elementos de ócio, convívio e cultura dos últimos cem anos não conseguem dar as mãos e caminhar felizes ao pôr-do-sol. Quando a abordagem ao jogo é feita de forma lateral, dos conflitos entre adeptos às rivalidades de bairro, das metáforas de vida a paixões escaldantes, de dramas a comédias sobre inadaptações sociais, o cinema em si safa-se. O problema é o jogo. A beleza do jogo que ninguém ainda percebeu como filmar.

Foram vários os realizadores que nos ofereceram retratos fantásticos associados ao boxe, ao basebol, ao golfe, aos mais diversos desportos automobilísticos, ao futebol americano e, até, ao basquetebol. Qualquer ângulo de abordagem serviu e são vários os exemplos em que a acção desportiva é filmada de forma, no mínimo, credível. Nada de dez jogadores ao redor de uma bola em meio metro quadrado de espaço, carrinhos fora de tempo, guarda-redes anedóticos ou remates ridículos que acabam no fundo da baliza em situações que Michel Preud’Homme pararia a bola com o peito. No boxe, com tanta pancada física e emocional, chegam mesmo a existir exemplos cinematográficos maravilhosos que até nos fazem sentir incomodados perante tão dura realidade.

Quando o futebol entra em acção, o cinema é derrubado.

O cinema nunca encontrou problemas com nada, do futuro ao passado, da imaginação sem limites da ficção científica à realidade crua e dura de um homem a lutar pela vida. Com nada, à excepção do futebol – e, talvez, do ténis. Nem quando é colocado Pelé em campo e John Huston atrás das câmaras, o cinema consegue evitar que o jogo em si seja filmado num tom grotesco, infantil e, acima de tudo, surreal. Quando o futebol entra em acção, o cinema é derrubado. Os adeptos, os árbitros, os jornalistas desportivos, as crianças, as mulheres que sonham ser como Beckham, os dirigentes, todos eles encaixam na sétima arte. O que não encaixa é a maravilha do jogo jogado. Seja pela sua dificuldade de execução, pela sua complexidade, pelo facto de ser um dos desportos mais seguidos em todo o mundo ou porque nasceu na Europa e não nos Estados Unidos da América, a verdade é que o futebol dentro das quatro linhas nunca consegue ser tratado com harmonia e rigor dentro de uma linguagem cinematográfica coerente e cativante. É este o grande Evereste por escalar do cinema, filmar o futebol como este merece. Nós, adeptos das duas artes, continuamos à espera de um alpinista que alcance o cume mais alto de todos.

filmar o futebol não é filmar uma paisagem em movimento ou um ecrã verde por trabalhar.

Quando a mítica Cahiers du Cinema, revista cinematográfica francesa associada à nouvelle vague (Truffaut, Godard e tantos outros escreveram na mesma) publicou em Julho de 2002, na sua edição 570, uma tabela de estreias cinematográficas com a opinião dos críticos da casa resumida a estrelas, onde as duas últimas linhas foram guardadas para dois jogos do Mundial de Futebol de 2002 (Brasil vs Inglaterra e Itália vs Coreia do Sul), a K2 cinéfilo-futebolística foi escalada. A importância sociológica e de inclusão cultural do futebol foi reconhecida pela bíblia intelectual e as clivagens entre as classes desapareceram. Os cinéfilos já não tinham de apreciar o futebol às escondidas. Um feito histórico que não foi acompanhado a nível de execução técnica.

Apesar de todos os avanços tecnológicos, filmar o futebol não é filmar uma paisagem em movimento ou um ecrã verde por trabalhar. É preciso conhecer as entrelinhas do jogo, a sua complexidade e, ao mesmo tempo, a sua simplicidade, para evitar imagens falsas. Porque mesmo que cultura e futebol andem agora de mãos dadas, poucos cineastas são suficientemente futeboleiros para saber filmar a modalidade. E, os que o são, sabem que estão perante infinitos handicaps, principalmente aqueles relacionados com os jogadores/actores. A primazia, por respeito e até pela lógica de uma indústria imparável, é dada aos actores; e os inconvenientes com a bola que parece mais quadrada do que redonda multiplicam-se até ao desastre. Não serão os fantásticos anúncios publicitários destinados ao futebol – principalmente os da Nike – a prova que é mais fácil transformar um jogador num actor que o inverso?

Controlar estas imagens é controlar o jogo.

A esperança surge mesmo nestas novas vias, da publicidade às transmissões televisivas. O dinamismo com que os grandes jogos são hoje filmados, com jogadas e não-jogadas capturadas ao mais pequeno detalhe, na multiplicação das câmaras ao slow motion, das gruas e cabos aéreos aos travellings, tudo isso prova que os realizadores de televisão descobriram a forma ideal de tratar o futebol numa tela, forma essa que os cineastas não podem ignorar.

Uma transmissão televisiva de um jogo de futebol tem hoje rasgos de autor, partilha elementos artísticos com o cinema e deixa as imagens falarem por si próprias. Controlar estas imagens é controlar o jogo. Mas mesmo quando não se trata de um jogo a sério, a publicidade – esse ramo tantas vezes denegrido pelo cinema – mostra que é possível transmitir sensações, rivalidades, tradições, heroísmo e uma sensação de aventura através de metáforas associadas ao movimento de uma bola entre jogadores, crianças, heróis e vilões, seja num aeroporto movimentado ou numa arena em pleno inferno. De uma vez por todas, chegou a hora de cinema e futebol encontrarem o seu lugar no meio de tantas possibilidades. Por outras palavras, chegou o momento de aparecer um “Raging Bull” futebolístico, um “Any Given Sunday” europeu.

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