A minha alma está em Itália

Eram 3h36 quando os residentes de Perugia, a Nordeste de Roma, viram as suas vidas mudar para sempre. É triste pensar que basta um momento para alterar a vida de centenas de pessoas. O sismo que abalou a região central de Itália não só destruiu casas como tirou a vida a mais de 200 pessoas. E este número vai subir.

Centenas de pessoas ficaram feridas. Metade da cidade de Amatrice desapareceu com o sismo. E em Accumuli há crianças soterradas nos destroços. A vida humana parece ter cessado numa localidade onde há quem diga que só se ouvem gatos.

Basta um segundo e tudo pode cambalear. Um segundo e o que era deixou de ser. E é cada vez mais cruel chegar à conclusão que a Natureza parece ter um desejo secreto de ver a Humanidade ruir.

E estamos a falar de Itália. A morada de Leonardo Da Vinci, Ticiano e Miguel Ângelo.

O berço do Renascimento. A terra dos gladiadores e dos imperadores. E é de partir o coração, pensar que esta terra foi atingida por uma ferida tão grande e tão difícil – ou quase impossível – de sarar.

Estas pessoas estariam a ter uma vivência tão profundamente normal quanto a nossa minutos antes de o sismo acabar com a sua casa, com a sua terra e, em muitos casos, com a própria vida.

Isto custa ainda mais por Itália ser tão especial. Tão mágica. Tão difícil de não adorar. E ir a Itália foi, sem dúvida, um dos momentos mais felizes da minha vida.

É que, para mim, viajar é mais do que explorar, é ser livre pela primeira vez. Quando entro num avião, tenho sempre aquela sensação esquisita e indefinida de que estou a ultrapassar mais uma barreira. E o estranho é que estou mais em casa comigo mesma lá fora do que em Lisboa. Como se fosse uma pulga saltitante que se torna rapidamente numa espécie de cometa.

É aquele momento em que as preocupações voam e os hábitos que temos tão enraizados mudam. Simplesmente porque arriscámos sair da nossa zona de conforto e fomos ver o que existe fora da nossa rua, da nossa cidade e, algumas vezes, até fora do nosso país.

E há locais tão perfeitos que nos fazem sentir uma calma quase que espiritual. O continente europeu está recheado deles. E, sem dúvida, que o país de  Maquiavel faz parte desse leque muito especial.

Verona é daquelas cidades europeias que cheiram tanto a Renascimento, arte, boa comida e cultura que é impossível não nos imaginarmos numa comédia romântica ao lá chegarmos.

Só a Piazza Erbe é uma ode à cultura ocidental e a Catedral de Verona é quase mágica.

Difere um pouco do ar pesado que encontramos noutros monumentos religiosos de outros destinos europeus.

Um fim-de-semana prolongado neste local é uma forma de respirar de novo. É reencontrarmos sabores que uma parte de nós tinha esquecido e uma sensação de verdadeira paz que já parecia desaparecida. É daqueles sítios que são tão belos quanto simples. Se procuram uma boa pizza, Verona deve ter a melhor de toda a Itália!

Uma paragem obrigatória para qualquer apreciador de arte é Florença. As galerias Uffizi ostentam o epítome da estética com os quadros majestosos de Botticelli como “O Nascimento de Vénus”. E se os quadros são numa palavra brilhantes, a livraria do museu alberga um conjunto imenso de coletâneas de arte em várias línguas, sobre vários artistas e sobre temas específicos.

Ir a Florença e não ir ao Palazzo Pitti não é bem como ir a Roma e não visitar o Papa. É muito mais grave que isso. É como se a nossa chave de acesso ao céu fosse parar aos perdidos e achados de uma qualquer estação de metro. O Pitti não vale apenas pela sua magnitude e pelas salas recheadas por motivos pagãos ao estilo do Renascimento, mas também pela história de cada sala, de cada pintura e de cada ornamento.

A Ponte Vecchio, o Palazzo Vecchio, o Baptistério são alguns dos exemplos que fazem de Florença uma das cidades mais incríveis do mundo.

Considerada por muitos a cidade dos intelectuais, é uma tentação cultural para qualquer amante de arte.

Um par de horas de comboio depois, assentamos em Veneza. A terra de Casanova, o libertino mais conhecido do mundo. Entre ruas estreitas e cheias de lojas de máscaras e alusões à ilha de Murano e ao Carnaval, exploramos um mundo novo.

Uma realidade destemida e original que nos atrai inevitavelmente. É a música clássica na Praça de São Marcos, são os gelados óptimos de dar água na boca e toda a atmosfera mágica que nos lembra o mais interessante romance de fantasia que já lemos.

Da janela do hotel meio rústico e quase encantado, dava por mim a ouvir a música da rua misturada com uma alegria espontânea de quem a escutava. Veneza é mais que monumentos condensados numa praça ou ruas que apresentam souvenires para turistas. Veneza é um espírito livre que, ocasionalmente, nos recebe

Partilhar